sábado, 17 de maio de 2014

Águas Profundas



— Ali! 

— Cadê?

— Venha pro lado de cá, dá para ver melhor.

— Que nada, é tudo a mesma coisa.

— Mais três... quatro agora... Venha logo!

Demian, a contragosto, virou o corpo para a outra extremidade do barquinho e posicionou-se ao lado do Imaginário, seu gato.

— Ainda não vejo nada — reclamou o rapaz.

— Espere escurecer um pouco, talvez fique mais fácil visualizar.

Frustrado, Demian respirou fundo e deu mais uma olhada em sua volta. O sol descia sobre a linha do horizonte azul. Água calma, em todas as direções. E nenhum sinal de gente. Era ele dentro do barquinho, mais ou menos do tamanho de uma cama de solteiro comum, e mais ninguém, além do Imaginário, que havia cismado com a ideia de lhe mostrar sei lá o quê.

— Aliás, como é que pode, vagalume debaixo d’água? — Questionou, enfim, sem paciência.

— Como é que pode, eu falando com você? — rebateu o Imaginário, encarando Demian com seus olhos luminosos.

— Ah, então é isso. Enlouqueci! Deve ter sido a comida, o sol, essa água azul que não termina nunca. Agora dei para falar com um gato. Pior! Ele está me convencendo de que existem vagalumes no fundo do mar...

— Então, você acredita?

— Não coloque palavras em minha boca. E pare de falar, preciso arranjar um jeito de sair daqui.

— Mergulha.

— Lá embaixo? — Espantou-se.

— Por que não? — a descontração do gato fazia a coisa toda parecer ridícula de tão simples.

Demian pensou em retrucar o Imaginário, porém, por mais surreal que pudesse ser, aquilo até que tinha certa lógica. O sol já era apenas um borrão laranja espalhado no céu. A água estava cada vez mais escura. Isso fez o corpo todo do rapaz se arrepiar somente com a ideia de entrar ali.

— Não terei onde pisar.

— Você não precisa pisar em nada.

— Mas como eu...

— Você pensa demais — cortou o Imaginário — É mais um daqueles que não sabem como, por quê ou para onde. São dominados pelo medo de se perder lá no fundo. Dos monstros e tempestades. Do quê ou quem vão encontrar. Medo de ser e de não ser. Na verdade, o medo de mergulhar é mais comum do que você imagina. Tem a ver com o medo de descobrir. Para saber a direção na qual se quer ir, antes é preciso mergulhar. Se você ficar aqui no barquinho, não vai ver nada e vai continuar à deriva.

Demian ouvia o discurso motivacional do gato sem se dar conta de que já estava debruçado no barquinho com os olhos fixos na água, que refletia o céu já escuro. Pelo espelho d’água, percebeu a presença de uma estrela. E outra. Mais uma ali, duas aqui. Piscavam... E se moviam!    

— Os vagalumes! — Exclamou Demian, quase derrubando o gato na água.

— Você não ouviu nada do...  O que você disse?

— Eu estou vendo! — O rapaz vibrava a cada piscadela que avistava — Como é possível? Tenho que olhar mais de perto.

— Agora você entendeu — Sorriu o Imaginário — Vá. Esperarei aqui.

— Você me ajuda?

— Já ajudei. Desliguei o seu celular.

Demian colocou primeiro o rosto dentro d’água e abriu os olhos. Parecia que o céu estava de cabeça para baixo. Centenas de milhares de estrelas piscando, rodopiando. O rapaz mal podia segurar a alegria. Fascinado, foi deslizando o corpo inteiro para dentro daquele universo que lhe amedrontava apenas por ser desconhecido. Vagalumes, árvores, pássaros. E ruas, carros, casas. Então, do mesmo jeito que ele deixou de se perguntar como era possível conversar com um gato, Demian parou de julgar o que achava que deveria encontrar lá no fundo e aproveitou a beleza do que antes chamara de loucura. E foi mais fundo. E mais fundo. Tão fundo que chegou à superfície.

— Tem uma borboleta no seu nariz. E o barco está cheio delas, olha só!

— Devem ter vindo comigo, de lá do fundo — respondeu Demian radiante.

Os dois riram daquele momento de medo que merecia uma fotografia.

— E então, para onde? — disse o gato Imaginário.

— Lá — Demian apontava para uma imensa bola amarela que surgira na linha do horizonte azul. — Vamos!

— Para a lua?


— Por que não?

domingo, 13 de janeiro de 2013

Segredo




O Imaginário percebeu a coisa toda desde o início.

Os dois se viram de longe, mas fingiram que nada havia acontecido. O Rapaz e a Moça. Eles estavam bem ali, no meio da multidão. Amigos, parentes, colegas, conhecidos e desconhecidos. Todos naquele mesmo lugar. Eles se evitavam ao máximo, já que entendiam que a força do encontro poderia causar um evento de consequências incontroláveis. E precisavam, mais do que nunca, daquilo que não queriam ter naquele momento: controle.

A distância ajudava a aliviar a tensão entre eles, que mais se assemelhava a uma corrente elétrica, constante, firme, ansiando por um condutor.

O que fazer?

Ficar longe

Mas como?

Melhor afastar mais

Será que é fácil?

Não sei. E não quero saber.

Apesar de estarem em extremos opostos, tinham plena certeza de que pensavam a mesma coisa. Situação engraçada, essa. Não se olhavam, porém, sabiam perfeitamente onde cada um estava. Conheciam os passos um do outro. Moviam-se através do local, por entre as pessoas, fazendo um esforço gigantesco para não se esbarrarem. Quem olhasse apenas para um deles veria nada mais que uma pessoa comum conversando, bebendo, rindo e admirando o ambiente. Entretanto, o primeiro que tivesse a esperteza ou a sorte de observar os dois... Àquele sim, tudo seria revelado. Era como se dançassem à distância. O Imaginário era o único que via. Havia ali um campo magnético quase visível. Pouco menos tangível. Perigoso. Sedutoramente perigoso. O Imaginário gostava desse perigo. Era o que lhe deixava vivo. 

Obra do Imaginário? Ninguém saberá. Fato é que o inevitável aconteceu: Rapaz e Moça se acharam frente a frente. Perto. Perto demais. A tensão tornou-se rapidamente insuportável. E então foi possível ouvir algo que se parecia com um sinal, de frequência tão alta que poderia ser perdido à menor distração. Era música. E também foi possível sentir um perfume muito suave para os desavisados, entorpecente para os atentos.

Eles estavam perto demais.

Ainda assim havia uma saída. Tudo que precisavam fazer era cada um virar para um lado e seguir calmamente, aumentando de novo a distância e reduzindo a tensão. Porém, a música já ia alta, o perfume já enfraquecia a capacidade de raciocínio. Até que, em meio a toda aquela atmosfera inflamável, eles resolveram acender o fósforo:

Olharam-se no olhos.

Em uma fração de segundo, Rapaz e Moça já corriam de mãos dadas para fora daquele lugar, atropelando, se batendo, derrubando... fugindo. Correram por ruas e becos, subiram e desceram escadas, pularam muros e janelas. E chegaram. A brisa soprava gentil enquanto o sol se punha, dourando a água do mar cristalino e sem ondas. Não havia mais ninguém em qualquer direção que se quisesse olhar. Rapaz se adiantou:

— Pode vir?

— Tudo bem. Posso pisar aqui.

Moça deu um passo à frente e enterrou devagar os dedos dos pés na areia branca. Os dois caminharam até a beira do mar até sentir os tornozelos na água fresca. Moça sorriu diante da hesitação de Rapaz.

— Agora sou eu quem te convida a entrar.

— Como faço isso?

— Confie em mim.

Rapaz segurou firme a mão de Moça e a seguiu até sentirem a água acariciando o peito. Nada mais importava. Não precisavam se esconder ali. Toda aquela energia domada poderia enfim ganhar merecida liberdade. E foi exatamente o que se deu. Seus lábios enfim se encontraram como há muito ambicionavam. Um novo encontro de velhos conhecidos. Lábios que conversavam com propriedade. Que se sabiam por inteiro. A água não era capaz de refrear o calor daqueles corpos que tanto se compreendiam, mesmo sem compreender o porquê. Dançavam ao som daquela música que se recusava a permanecer apenas nos ouvidos. Eles sentiam nos poros o ardor de cada nota musical ao passo que o perfume de suas peles aumentava sua embriaguez. O atrito de forças tão complementares desafiava a respiração, que tentava a todo custo acompanhar os suspiros profundos, insistentes em se fazer ouvir. Não havia pessoas, não havia julgamento, não havia roupa.

Já era noite. Nem perceberam quando chegaram à areia, rolando, ainda ligados, se alimentando um do outro como vampiros, sorvendo cada gota de desejo. Devorando cada fio de vontade. Também não se deram conta de quando pararam para observar as estrelas. Ainda deitados. Ainda unidos. A eletricidade dava voltas por todas as células, fazendo os corpos tremerem no compasso de batidas violentas daqueles corações que pulsavam em uníssono.

A luz da lua era como tinta sobre eles. Ficaram ali, se olhando nos olhos, enxergando o que o outro revelava. As mãos não pararam nem por um instante de acariciar, de convidar. De confiar.

E dormiram

Quando acordaram ainda estavam se olhando. Porém, não estavam na praia. Se achavam de volta ao local onde tudo começou. Amigos, parentes, colegas, conhecidos e desconhecidos. Todos naquele mesmo lugar. Não havia passado um único segundo sequer desde que se olharam nos olhos. E naquela fração de segundo, em silêncio, eles sabiam que os dois perguntavam a mesma coisa:

Aconteceu?

Tivemos o mesmo sonho?

E eles sabiam a resposta. Os mais atentos seriam capazes de vislumbrar o esboço, o fantasma de um sorriso cúmplice, no cantinho da boca. Quase como uma piscadela. Discreto demais para os desavisados.

E assim, dentro daquele fragmento de olhar, eles souberam que tudo estava combinado. Com todas as linhas.

Quem viu?

Somente o Imaginário, que não conseguia segurar a gargalhada.

E por que ele ria?

Porque ele sabe guardar segredos. 

sábado, 28 de abril de 2012

Revelações no Cobre




(acende a vela)

SANTOSSUJO — Nem me lembro da hora que eu decidi ir lá... Aliás, que importância tem isso, né?

(Dentro da vela os olhos luminosos do Imaginário piscam atentos, mais brilhantes que a própria chama).

IMAGINÁRIO — Vá logo ao que interessa!

SANTOSSUJO — Sim, mas não me apresse.

IMAGINÁRIO — Tá, tá...

SANTOSSUJO — Quando eu cheguei a luz estava acesa. Fui descendo as escadas cobertas de fitas vermelhas. Gosto daquelas fitas. Sempre gostei. Eles estavam lá, no meio da descida.

IMAGINÁRIO — Quem?

SANTOSSUJO — Meus coleguinhas do primário...

IMAGINÁRIO — Hã?

SANTOSSUJO — Claro que não, idiota, os vampiros.

IMAGINÁRIO — Sim, sim, é.

SANTOSSUJO — Pois é, eles me cumprimentavam com o olhar, como se dissessem: “Eu sabia que você vinha”. Todos eles fizeram isso comigo. Retribui o olhar como se dissesse: “Eu avisei que vinha”. Fiz isso com todos eles.

IMAGINÁRIO — E eles seguravam as luzes?

SANTOSSUJO — Claro que sim. Traziam a luz. Como esta aqui, onde você está agora. Também gosto disso. Sempre gostei.

IMAGINÁRIO — Hum... E você... Bebeu?

SANTOSSUJO — Olhe bem pra mim, você acha que eu não ia beber?

IMAGINÁRIO — Desculpe. Esqueci que você é meio sinestésico. Mas não tomou tudo de vez, tomou?

SANTOSSUJO — Não, dessa vez eu demorei. Tomei devagar. Olhando. Ouvindo. E ouvindo... Ah! Você sabia que a música era diferente? Tinha um tom, uma cor particular. Própria, sabe?

IMAGINÁRIO — Sei, ou melhor, imagino.

SANTOSSUJO — Fiquei em um lugar que julguei adequado para observar melhor o encontro. Não tinha noção de que, na verdade, eu ia “participar”.

IMAGINÁRIO — Como assim?

SANTOSSUJO — Fui convidado.

IMAGINÁRIO — E você foi?

SANTOSSUJO — Você tá me achando com cara de quê? Lógico que eu fui.

IMAGINÁRIO — Continue.

SANTOSSUJO — Bem, Outros me queriam, mas o primeiro conseguiu me segurar. Fui conduzido ao seu círculo. Não tinha mais volta. Era impossível retornar ao lugar de onde me puxaram. Agora só restava o encontro. Permaneci no círculo e aguardei as revelações do vampiro.

IMAGINÁRIO — E quais foram? O que o vampiro revelou?

SANTOSSUJO — Hahahah! E você acha que eu vou te contar?

(apaga a vela) 

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Salvação




A garotinha deitada observava fixamente as estrelas fluorescentes no teto do seu quarto escuro. Aguardava o sono como quem aguarda a sua vez na sala de espera do clínico. Não estava com fome, não estava com dor de cabeça, muito menos irritada com qualquer coisa que fosse. Aquela insônia a perseguia sempre, sem razões aparentes. Surgia-lhe do nada como um assaltante na esquina. Ela sabia que todos na casa estavam dormindo profundamente. Menos ela. A ideia de ser “a última a dormir” lhe trazia um medo esquisito a que ela preferia chamar de “insegurança”. Tornava a coisa mais leve. Na medida em que o tempo passava, ela se sentia cada vez mais insegurança.

De repente, teve a ideia mais óbvia de todas. A ideia por si só já lhe trazia um pouco de tranquilidade.
Por que não pensei nisso antes, pensava a garotinha enquanto juntava todos os bichos de pelúcia na sua cama. Depois de reuni-los à sua frente, sussurrou para todos:

— Você está aí?

Silêncio.

A garotinha se preparava para um novo sussurro quando o ursinho que estava mais perto deu uma piscadela.
O corpo da menina estremeceu arrepiado de susto. Era sempre assim, nunca se acostumava. Depois do espanto habitual de ver o seu brinquedo se mexer, seus ombros voltaram a relaxar. Os olhos do ursinho estavam acesos como duas lanternas no fundo de um poço sombrio. Aquela cena teria sido macabra a olhos desacostumados, mas não para a garotinha, que agora esboçava um sorriso.

— Boa noite — dessa vez era a boca do urso que acendia e se movia enquanto os olhos retornavam à escuridão tradicional.

— Oi — disse a menina — que bom que está aqui. Eu estava... Eh... Um pouco insegura...

— Com medo? — riu o Imaginário do interior do ursinho.

 — É. Você entendeu.

— Pelo menos sabe do que você tem medo?

— Não. Acho que isso é o pior. Não saber.  Queria ter um anjo só pra mim. Assim eu nunca mais teria medo de nada. Mas eu nunca vi um. Nem sei se eles existem. Deixa eu te perguntar uma coisa. Anjos existem mesmo?

O Imaginário esperou alguns segundos antes de começar a falar.

— Para te responder isso eu preciso antes fazer duas perguntas. A primeira é: Você quer que eles existam?

— Como assim? É só querer e pronto?

— Basicamente.

— Claro que eu quero! — disse a garotinha agarrando o ursinho pelas patas — Qual é a segunda pergunta?

— Para essa eu vou te contar uma fábula.

— Sim, sim, conte — A garotinha, atenta, fitava os olhos acesos do urso de pelúcia, como se eles fossem uma janela para outro mundo. Os olhos então se apagaram e a luz tomou conta de sua boca.

Era uma vez uma Criança que tinha medo de tudo. Tinha medo principalmente de si mesma e do que as pessoas pensavam dela. Uma Criança “insegura”.

Uma noite essa Criança estava em seu quarto e viu um ser desconhecido em sua janela. No começo teve um pouco de medo dele também, mas foi fácil perceber que não lhe faria mal. Todas as noites ele a observava pelo vidro da janela enquanto ela pegava no sono. Com o passar do tempo, a Criança notou que a presença da criatura lhe trazia certo conforto. Trazia-lhe “segurança”. Então, tomou coragem e abriu a janela para deixar a criatura entrar.

— Qual é o seu nome? — perguntou a Criança.

— Eu não tenho nome.

— Como você consegue subir até aqui? É muito alto.

— Não sei como. Só quero subir e então subo.

— Ah! Então você é um Anjo!

— Sou?

— Sim. Você pode ser meu Anjo?

— Mas, o que um Anjo faz?

— Um Anjo protege.

— Você acha que eu posso te proteger?

— Claro! Eu não tenho medo de você; quando você está por perto, eu me sinto melhor; você subiu até aqui porque deve ter asas; você não tem nome... Você só pode ser um Anjo. E então? Pode ser meu Anjo?

— Certo. Agora sou Anjo — riu a criatura achando a proposta divertida.

A partir desse dia o Anjo passou a proteger a Criança de todos os males. Ela poderia chama-lo a qualquer momento. Ele sempre salvava sua pele. Ela lhe pedia conselhos para tudo. Ele sempre atendia.

A Criança foi ganhando confiança, se tornando mais e mais alegre. Passou a acreditar mais em si mesma. Já não havia medo ou insegurança. E qualquer coisa que desse errado, o Anjo estava lá. Para salvá-la.

A confiança foi tanta que a Criança passou a precisar menos do Anjo. Até que, andando por aí, sentiu um cheiro maravilhoso. Seguiu o perfume até chegar a lindos campos de morangos. Encantada, correu até o campo e comeu o máximo de morangos que conseguia aguentar. Quando voltou para casa, sentiu fortes dores e enjoos, ficou fraca e doente. Os morangos eram venenosos. Mais que depressa, a Criança clamou pelo Anjo para que ele a salvasse da morte. O Anjo prontamente atendeu o seu chamado e a curou, enquanto ela praguejava os morangos e prometia nunca mais ser enganada pelo seu perfume.

Mas o aroma era inebriante. A Criança nem percebeu quando se deixou levar até os morangos e, quando caiu em si, já os havia comido.

Mais uma vez a Criança pediu ao Anjo para que ele a salvasse. Ele, honrando o seu papel de protetor, curou-a novamente. E novamente ela prometeu nunca mais ser enganada pelo cheiro dos morangos. E isso aconteceu uma, duas, três, quatro... E outras vezes.

Ela sempre comia. Ele sempre salvava. Ela sempre prometia.

Até que, um dia, ele mesmo a viu, no meio dos campos de morangos, enfeitiçada pelo perfume. O Anjo, enfim, percebeu que a Criança não era mais como antes. Ela sempre faria tudo de novo. Ela queria continuar comendo os morangos e queria ter um Anjo para tirar-lhe o veneno. Ele demorou a enxergar isso. Mas, por fim, compreendeu.

O que a Criança não sabia é que todas as vezes que o Anjo a salvava ele recebia toda dor, como se ele mesmo tivesse engolido o veneno. O Anjo estava morrendo. E quem o salvaria?

Triste, o Anjo se afastou da Criança para não perecer. Foi embora. Ela não percebeu quando isso aconteceu, estava ocupada demais sentindo o perfume. Quando a Criança, com a boca ainda suja de morangos, chamou o Anjo para salvá-la, este não estava mais lá. Em seu lugar havia apenas uma coisa...

— Uma pena? — balbuciou a garotinha, já de olhos fechados — Uma pena da asa do Anjo...

— Por isso, garotinha, você pode sim fazer com que os anjos existam. Saiba que quando eles te protegem, eles usam parte da própria vida. Então, cuidado para não condená-los a te ajudar para sempre apenas para que você possa comer morangos eternamente. E é justamente aí que está a minha segunda pergunta para que você possa ter um anjo:

“Você verdadeiramente quer ser salva?”

A garotinha não respondeu. Continuou de olhos fechados, respirando tranquilamente. Estava dormindo... Estava?

— Você acertou, garotinha. Era uma pena.

O Imaginário já havia saído do corpo do ursinho de pelúcia. Deu uma olhada para trás antes de ir embora pela janela do quarto.

— Realmente, uma pena.

sábado, 10 de dezembro de 2011

A Dama da Rua 309



Os pés do rapaz já doíam há algum tempo. Mas ele não ia parar. Não agora. Não ainda. Tinha a sensação de que, se parasse, cairia. Por isso, continuava, a passos lentos, sempre constantes, sob a luz fria da lua cheia, única coisa que iluminava os trilhos onde pisava. Cansara de esperar o trem. Duvidava se este realmente chegaria. De tempos em tempos passava a mala de uma mão para outra a fim de descansar um braço de cada vez.

Até que veio aquela voz, somando-se ao ruído dos grilos e das pedrinhas que estalavam debaixo dos seus passos na estrada sem fim. Aquela voz, tão conhecida, até que lhe trouxe um pouco de conforto:

— Santiago!

O rapaz tirou uma carta de baralho do bolso e lá estava a silhueta de olhos luminosos chamando seu nome.

— Você sempre escolhe aparecer na carta do Coringa.

— Não gosto de ser representado por um número — respondeu a criatura. — Onde estamos?

— Não era eu quem devia perguntar? É você quem sabe das coisas.

— Essa é a ironia. — comentou o Imaginário. — Eu só sei quando você sabe. Além do mais, você é o profissional por aqui. O “mágico”.

— Ah, pare com isso.

— É verdade! — continuou a sombra. — Gostei muito da sua última apresentação. Parabéns!

— Ah! Você viu?

— Claro! É uma pena que ela não estava lá.

— Ah... Você viu.

— E pensar que tudo isso foi por causa dela.

— É... — disse o rapaz. — Parece que foi ontem. Eu não pretendia ficar na cidade, só havia agendado uma noite de espetáculo, ali, na Rua 309. Um fracasso total. Ninguém apareceu.

— Ninguém? — sorriu o Imaginário.

— Só ela. Na fileira da frente, pedindo para que eu não cancelasse a apresentação. Confessou-me que era a sua primeira vez. Nunca havia presenciado um número de mágica na vida. Isso me deu toda a motivação do mundo para fazer um grande show. Nunca vou saber se ela disse que gostou só pra me agradar.

“Soube depois que ela havia convencido os donos do teatro a me deixarem apresentar por mais alguns dias. E os dias se tornaram meses. A partir daí, foi sucesso de público, O teatro lotado todos os dias, lembra?”

— Sim, eu me lembro. — disse a voz vinda da carta do Coringa. — E ela lá.

— E ela lá — repetiu Santiago com alegria —, sempre na mesma poltrona, observando cada número, cada movimento, de cada truque. O que mais me maravilhava era que ela sempre via tudo com o mesmo entusiasmo, se surpreendia sempre com as mesmas coisas. Como se fosse uma eterna primeira vez. Demorei um pouco a perceber que eu já não me importava com o teatro lotado, com o quanto as outras pessoas adoravam meus números. Quando a cortina se abria, parecia que uma luz se acendia sobre ela e o resto da plateia ficava na escuridão. Depois de um tempo, notei que era eu quem a assistia, prestando atenção a cada pequeno gesto, cada expressão de surpresa, espanto, alívio... Esse era o seu truque.

“Comecei a inventar coisas novas, só para ver como ela reagiria. O que faria. Eu acho que ela nunca acreditou de verdade que, quando as luzes se acendiam, era tudo para ela. Por ela.”

— Até que... — disse a sombra.

— Até que acabou. Sumiu. — respondeu Santiago, trocando mais uma vez a mala de mãos.

— Você sabia que isso ia acontecer. Você é criado para isso. É um viajante. Não devia se importar tanto com essas coisas. O importante é que valeu a pena tudo aquilo. Ou não? Está arrependido?

— Não sei o que eu estou ou não estou. Não sei decifrar. Fui pego de surpresa. A cortina se abriu, como sempre. As luzes se acenderam, como sempre. Eu sorri em direção à mesma poltrona, como sempre. Mas algo não aconteceu como sempre. Seu último truque foi muito bem executado. O teatro estava lotado e eu não via ninguém. Eu ainda estava preso à ilusão da primeira vez. E logo agora que tinha preparado um número especial. Pretendia chama-la ao palco para ser minha ajudante por uma noite. Imagino a cara dela. Nunca vou saber se ela aceitaria. 

Os olhos do mágico se encheram de lágrimas.

— Não tem mais importância. Depois do show me entregaram um bilhete dela, me informando que não estaria mais na plateia, que não veria mais minhas mágicas. E pronto.

— Provavelmente enjoou e voltou à sua vida normal — explicou o Imaginário. — Você sabe melhor do que ninguém que as coisas mudam o tempo inteiro. Você mesmo vive dessas mudanças. Elas te alimentam. Você morreria se ficasse na rotina. Precisa de novos truques, novos teatros, novas plateias. Lembre-se da sua sagrada liberdade. O seu poder de fazer, ter e ser tudo o que quiser. Mude a si mesmo você também.

— Foi o que eu fiz. — respondeu o rapaz sem olhar para a carta do Coringa. — E é Por isso que fui embora. Eu sou a favor das mudanças. Algumas apenas doem mais do que outras. E as dores sempre passam. A minha está passando. À medida que vou andando, sinto a mala mais leve.

— É isso, você entendeu! — berrou a silhueta.

— Não. Eu sempre soube.

O imaginário soltou uma gargalhada que ecoou pela estrada infinita.

— Jamais imaginei que fosse viver uma grande aventura no Teatro da Rua 309.

— E aí? — disse a sombra na carta — está pronto pra outra aventura?

— Sempre estou.  Mas primeiro, preciso saber pra onde vou, senão essa estrada não termina.

— Fique à vontade — disse a voz.

O rapaz fechou os olhos em silêncio. Depois de alguns segundos, uma luz forte surgiu ao longe, junto com um barulho muito característico.

— Lá vem o trem. Sinal de que você já decidiu para onde vai.

O trem parou e a porta se abriu. Antes de entrar, Santiago assumiu uma expressão até então desconhecida pelo Imaginário. Impossível dizer se era uma cara de surpresa, confusão, alegria ou tudo junto. Ficou assim por um tempo, observando o caminho que percorrera a pé. Depois abriu um sorriso, subiu no trem e sentou em um banco perto da janela. O trem seguiu viagem enquanto ele olhava a lua cheia ainda rindo.

— Posso saber qual é a graça? — indagou o Imaginário de dentro da carta do Coringa.

Santiago encarou a silhueta luminosa e sussurrou:

— Esqueci a minha cartola no palco do teatro.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Metamorfose



— Sim – respondeu o Imaginário.

— Sim o quê?

— Sim, eu leio o seu pensamento. Não foi isso que você perguntou agora?

— Eu não disse nada.

— Mas pensou. Ou não?

— Não, quer dizer... Você tá me assustando!

— Desculpe. Já quer mudar?

— Não.

Betina parou com a mão em cima da torneira do chuveiro e observou por uns segundos os dois círculos luminosos no canto escuro embaixo da pia. Estava conversando com uma sombra embaixo da pia. Talvez a água fria lhe trouxesse lucidez suficiente para sustentar cinco minutos de conversa. E talvez isso lhe fizesse deixar de ver o que estava vendo.

— Ah, foda-se.

Desistiu de girar a torneira e deu um passo para fora do Box. Dessa vez, quem girou foi a sua cabeça. Parecia que tinha se jogado em uma piscina de vodca. Não se lembrava de ter bebido tanto. Com certeza causou algum problema por aí. Cambaleou, quase derretendo pela parede até conseguir se sentar no vaso sanitário que mais parecia uma pedra de gelo.

—  Eu não entendo o porquê de ser tão frio aqui.

— O que você queria? — Os “olhos” da criatura se apagaram de vez, dando lugar a uma boca luminosa logo abaixo — São três e meia da madrugada, está chovendo lá fora e você está completamente pelada.

A garota soltou um gritinho e se encolheu no vaso sanitário. De repente relaxou, encarando o vulto embaixo da pia, agora à sua frente. A boca sumira, ficando só os dois olhos como de costume.

— Eu devo ser imbecil mesmo. Por que eu teria vergonha de uma sombra idiota?

— A sombra — retrucou o Imaginário. — é a projeção de uma imagem. Agora, olhe em volta. Se eu sou uma sombra, o que exatamente está me projetando?

—Você, além de chato, tem cada ideia macabra, credo...

— Macabro seria se eu fizesse a caixinha de música do seu quarto tocar sozinha. Quer ver?

— Não, porra!

— HAHAHAHAHAHAHAH!


Os dois permaneceram calados por alguns instantes. As gotas de chuva davam petelecos na janelinha do banheiro. De vez em quando, um trovão. E o silvo insuportável do vento brincando de fantasma. Betina respirou fundo. A cabeça ainda latejava, de leve. Suas unhas já estavam arroxeadas. Pensou em se enrolar numa toalha, num lençol, qualquer coisa, mas, tinha a impressão de que, se se mexesse daquela posição, cairia congelada. Viraria picolé de vodca. Olhou então para as pernas. Estavam pálidas. Devia estar parecendo uma defunta. Assim que fizesse sol, correria para a praia. Mas aquilo também deveria ser por conta do frio. E, claro, a lâmpada do banheiro era fluorescente, sem vida, isso fazia qualquer ambiente virar um hospital. Seria bom estar em um hospital agora. Não gravemente ferida, lógico, mas só em observação. Os hospitais têm aquecedores que provavelmen...

— Então?

— Ah! Que susto! — a moça berrou com o queixo batendo de frio. — Esqueci que você tava aí.

— Sei. Já decidiu? Vai mudar?

— Não sei. Talvez. Primeiro, me responda uma coisa: eu estou sonhando?

— Eu não acredito que você ainda continua me perguntando essa merda — disse o vulto sem a menor paciência. — Já disse que isso é relativo, mas você não entenderia. Se sonhar pra você for o que as pessoas fazem quando deitam e dormem, não, você não está sonhando. Se quiser experimentar, tente algo estúpido, sei lá, pular de cima do prédio.

— Tá muito frio, eu não sairia daqui.

— Você lembra o que estava fazendo antes de chegar?

— Só sei que tem a ver com  vodca — respondeu franzindo o cenho. — É... Dizem que bêbado nunca erra a própria casa né? Deve ser isso. 

Betina baixou a cabeça. Queria poder voltar no tempo. Alguns pedaços da memória iam e viam em sua mente. Finalmente, respirou fundo e disse:

— Estou pronta. Quero mudar.

Os olhos do Imaginário voltaram a sumir e, embaixo da pia, fez-se um largo sorriso de luz. Em menos de um segundo aquela sombra cresceu e engoliu todo o banheiro deixando tudo na mais completa escuridão. A única coisa visível para Betina era a boca fantasma do Imaginário.

— Desculpe, preciso de mais espaço para te enxergar melhor — disse a criatura, que agora possuía olhos três vezes maiores.

— Certo — gaguejou a moça. — Como você vai fazer isso?

— Estou vendo os fragmentos de realidade espalhados pelo seu corpo. Posso ver tudo o que você é daqui de onde os meus olhos olham. Consegue ver?

— Eu não consigo ver nada. Mas sinto.

— É natural.

— Também não tenho mais frio.

— Isso também é natural. Agora, preciso que você imagine como você quer ser. Assim que você imaginar, eu vou poder romper os fragmentos que você não quer e transformá-los no que você quer.

— Você pode manter alguns? Tem coisas que eu quero preservar.

— Claro.

— Ah, eu não tinha pensado nisso. Como posso retribuir?

O imaginário ficou um tempo em silêncio, os dois círculos dourados contemplando a moça que não sabia se estava louca, morta ou simplesmente sonhando. Por fim, disse:

— Faço isso porque gosto. Mas, se você quer realmente me pagar, pode me apresentar a tal da vodca.

Betina sorriu, descontraída.

— Vai doer?

— Vai.

— Uma vez você me disse que coisas fáceis e difíceis de fazer são tudo questão de escolha. Bem que podia ser assim com a dor.

— Algumas mudanças apenas aparentam doer. Sentir dor ou não também pode ser uma questão de escolha. Eu só estou conduzindo um processo natural, que pode doer se você quiser que assim seja. Senão, apenas escolha outra opção. No fundo, tudo isso não passa de um devaneio. Cabe a você preferir que ele seja consciente ou inconsciente.

— Então, já escolhi.

O que Betina podia visualizar agora eram duas mãos brilhantes flutuando no meio do nada, vindo em sua direção. Quando as mãos tocaram seu corpo, a sensação era diferente de tudo. Não era dor, mas, definitivamente, ela teria que inventar uma palavra para descrever aquilo.

O Imaginário estava ocupado usando as mãos para mudar a realidade de Betina, por isso, ao invés de usar a sua boca fantasma, escolheu falar dentro da sua mente:

— Você está se transformando em algo muito bonito. Consegue ver?

— Eu ainda não consigo ver nada — pensou Betina. — Mas sinto.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O Imaginário



Pessoas são problemáticas.

— Você é real? Pergunta mais ridícula... Responder a isso não é nada simples. Na verdade, eu nem sei a resposta. E também não quero saber. Se alguém souber, não me diga. Às vezes gosto de pitadas de ignorância na minha comida.

— Se já incomoda pensar que certos fatos são coisa da nossa cabeça, pense só o que é cogitar SER a coisa da cabeça de outrem.

— Chega, vou abrir os olhos — pensou o Imaginário. — Pronto. Agora, não escuto mais nada. Ou quase nada. Não posso cheirar, falar ou sentir o toque físico. Bem pouco. Em compensação, enxergo melhor do que qualquer aparelho jamais inventado.

Dos cinco sentidos, o Imaginário só podia usar apenas um de cada vez com perfeição, enquanto os outros permaneceriam defeituosos até que ele trocasse.

— Agora — continuou —, fecho os olhos e abro os ouvidos. Certo. Posso ouvir o que ninguém mais ouve, a qualquer distância, penso eu.

— E se eu quiser gritar?  

O Imaginário fechou os ouvidos e escancarou a boca:  

— AAAAAAAAAAH!!!

Abriu os olhos depressa. Olhou em volta. Ninguém. Ainda podia ouvir o próprio eco, mil vezes mais potente do que qualquer som. Mas ninguém ouviria. Não é muita vantagem ter habilidades especiais se você não tem ninguém com quem compartilhá-las.

As ruas estavam todas vazias, cheias de prédios vazios com vários apartamentos vazios. Uma cidade vazia. Em um mundo completamente vazio.

— Cansei.

O Imaginário estalou os dedos e mudou de mundo. Esse era diferente. Ruas apinhadas de carros, prédios e pessoas. Desse ele gostava. Os mundos vazios só serviam quando queria ficar sozinho, pra encontrar alguma paz. Mas quando a paz também começava a dar nos nervos, aí ele procurava um mundo cheio de Pessoas. Pessoas para analisar, pessoas para influenciar, ou até para fazer companhia. Sei lá, de repente contar uma história interessante. Se você soubesse como entreter o Imaginário, ele poderia te oferecer muitas recompensas. Desde que você não tivesse medo. Assim, o Imaginário sempre tinha o que fazer da vida. Ou o que fazer da vida dos outros.  A graça definitivamente estava nas pessoas.

Pessoas são essencialmente problemáticas.

Transformar a realidade era o seu passatempo predileto. Principalmente se ele encontrava alguém que topasse jogar. A capacidade de transformação do Imaginário crescia à medida que as pessoas imaginavam.

Mas, sempre existe a escolha. Sempre existiu e para sempre existirá.

Para o Imaginário não existiam escolhas certas e erradas. E era isso que as pessoas não compreendiam — ou fingiam não compreender.

Pessoas são perigosamente problemáticas.

Ao invés de escolher, as pessoas preferiam questionar, perguntar, querer saber, quando o jogo era simplesmente imaginar.

— Você é real?

— Isso é mesmo possível?

— Estou sonhando?

Isso era de doer o juízo porque, apesar de serem perguntas cuja possibilidade de resposta é SIM ou NÃO, não era tão fácil assim. Nunca era. Até porque ele jamais admitiu saber qualquer dessas respostas.  

O Imaginário achava até divertido ver pessoas com várias CERTEZAS sobre as coisas da VIDA. Elas esqueciam que, no fundo, elas não SABEM, apenas ESCOLHERAM pensar que isso ou aquilo era dessa ou daquela maneira.

Há muito tempo o Imaginário desistira de tentar descobrir se o que ele via, ouvia, tocava ou sentia era real. Ou se ele mesmo era fruto de uma cabeça que também pensava ser real, mas que na verdade também era fruto de outra cabeça que também pensava que pensava que pensava...

Nem sempre SIM ou NÃO resolveria.

— E o que é a porra da realidade? — pensava o Imaginário. — Pergunta mais ridícula...